Literatura de Ficção Científica

Resenha com Cointreau: Nas Montanhas da Loucura de H. P. Lovecraft

Descobri a literatura de H. P. Lovecraft recentemente e ja estou completamente fascinado pela literatura de horror e, para minha positiva impressão,  de ficção científica embebida de horror. É o que pode ser encontrado nas páginas de Nas Montanhas da Loucura! Como disse em outro post sobre outro romance de Lovecraft, o excelente “O Caso de Charles Dexter Ward”, minha aproximação com o autor foi vagarosa, mas agora que comecei a conhecer sua literatura, está muito difiícil parar de conhecer sua obra.

E finalizei a leitura de “Nas Montanhas da Loucura” e me surpreendi positivamente com uma história que transita entre a ficção científica e o horror e somente um autor com plena capacidade imaginativa poderia criar, numa zona tão cinzenta, uma ponte literária tão bem estabelecida. Lovecraft, em “Nas Montanhas da Loucura”, nos presenteia com (talvez) sua maior obra. Ele mesmo chegou a considerar esse livro sua maior realização, ainda que o percalço para que fosse publicado resultou numa verdadeira odisséia literária.

Porque? Bom, os motivos mais diretos seriam a troca do editor Edwin Baird, responsável pelas publicações de Lovecraft na extinta Weird Tales e a composição do livro (formato, etc). Imagina, o livro ficou pronto em 1931 e só foi publicado em 1935 e mesmo assim com severos cortes e “adequações”, o que levou Lovecraft a soltar maldições atrás de outras. Muito se passaria até que Lovecraft conseguisse realmente deixar o livro, já publicado, com o perfil desejado.

E a história? Bom, essa é a melhor parte de tudo isso, agruras editoriais a parte.

“Nas Montanhas da Loucura” tem um enredo relativamente simples (como são a maior parte das histórias geniais) e não é longa a história, o que na minha opinião é o único demérito de toda obra. “Nas Montanhas da Loucura” deveria ser uma obra de, no mínimo, umas 400 páginas. E porque acho isso? Simples: a trama é repleta de elementos que deveriam ser mais e melhor desenvolvidos. E por falar em trama, vamos a uma pequena sinopse desta singular obra literária.

Uma expedição científica patrocinada pela Universidade do Miskatonic é enviada para a Antartida com o objetivo de coletar espécimes de rocha e solo (além de vegetais e mesmo fósseis animais). A Antartida, praticamente a última fronteira na Terra a ser explorada, oferecia-se como um atrativo científico a diversos especialistas. Lovecraft utiliza como narrador da história um geólogo e permeia toda a trama com a visão de cientistas, entretanto, com o desenrolar das descobertas – e digo em relação a descoberta da existência de cidades arcaricas, anteriores a humanidade, no continente gelado – vemos que o autor – por sua experiência pessoal na leitura de obras como o Necromicon – inflige ao olhar científico a insegurança da qual não está habituado. Talvez o momento de ápice deste encontro entre o modo científico e o completamente desconhecido seja a descoberta de ruínas e de espécimes não reconhecidos e completamente desconhecidos com uma fisiologia que beirava o inusitado, entre o vegetal e o animal (o que me lembrou os fungos) e com um aspecto que inspirava medo, especialmente aos cães. Os momentos de descrição da autópsia (dentre outros, como a leitura da história da espécie descoberta num mural na cidade abandonada devido ao resfriamento da Antartida) empolgam, quase como se estivessemos ali, ao lado, visualizando tudo aquilo.

Lovecraft e o "espécime antartico"


E essa insegurança do olhar científico vai se abatendo sobre Allen e Danforth, personagens que, verdadeiramente, mergulham na história da antiquissima (e quando digo antiquissima, é isso mesmo, do período Cambriano pra cá) civilização (na verdade, o que sobrou dela) e esse mergulho é o que representa, de verdade, o espanto da história. Lovecraft consegue “cientifizar” o horror e o faz de forma magistral, mas também rápida. O que me faz retornar a minha crítica: “Nas Montanhas da Loucura” deveria ser mais expandida. Só o momento que Allen e Danfroth, tomados pela curiosidade da descoberta daquelas ruínas não-humanas, já valeria mais umas duzentas páginas. Sei que é desejo de alguém que ficou fascinado pela trama, mas não consigo deixar de imaginar o quão melhor seria se Lovecraft tivesse expandido a trama, mas verdade seja dita, acho que as dificuldades para publicar o livro seriam ainda maiores.

“Nas Montanhas da Loucura” é uma obra que vale a pena ter na prateleira. Comprei a edição da Editora Hedra e é excelente, com uma boa introdução de Guilherme da Silva Braga e com um acabamento bom do livro. Recomendadissimo, de qualquer forma.

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4 thoughts on “Resenha com Cointreau: Nas Montanhas da Loucura de H. P. Lovecraft

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