Literatura

Top 5 Ficções Históricas

Todo Top 5 é um osso duro de roer. Em todas – digo categoricamente TODAS – as seleções de “melhores” isto ou aquilo sempre o autor desse Top 5 termina não incorporando livros ou filmes ou discos ou músicas ou o que quer que seja mastigável culturalmente por pessoas que apreciam realmente os diversos supermercados culturais hoje pipocando pelo mundo real e virtual. Já elaborei um Top 5 de Livros de Ficção Científica e sei o horror que é fechar num circulo tão restrito anos e anos de livros degustados, mas como todo bom nerd que se preze – de forma aparente ou não – sempre terminamos por enveredar por alguns “Top 5″. E agora a pedreira que me proponho é relativa a um Top 5 de livros de Ficção Histórica. E a pedreira é boa!

Primeiramente, os critérios: para entrar nesse Top 5 a ficção histórica necessita não ser anacrônica. E sabemos que anacronismo é o pesadelo de qualquer historiador. Mas uma ficção histórica é, acima de qualquer coisa, uma ficção e, portanto, tem determinadas liberdades criativas. Ok, veja bem, essa tal de “liberdade criativa” permite, entretanto, algumas barbaridades, como a história em quadrinhos 300 de Frank Miller que é uma ode ao anacronismo e ausência de pesquisa histórica séria para o álbum HQ. Outro critério: pesquisa histórica séria. Geralmente para detectar se o autor ou autora de determinada ficção histórica fez uma pesquisa histórica séria, basta olhar as referências ou citações do (a) autor (a) no início ou final do romance. Se a pesquisa histórica foi feita “nas coxas” fica evidente pela ausência de fontes trabalhadas para o romance ou conjunto de romances que compreendem a ficção histórica. Por fim e não menos importante: a narrativa, a trama, o envolvimento. É a pedra angular desse templo que é a leitura. E diante dos três critérios, vamos ao Top 5 Ficções Históricas do Cabaré das Ideias.

5. Todos os Homens São Mortais de Simone de Beauvoir: Simone de Beauvoir é a grandiosa escritora de “O Segundo Sexo” – obra magistral que analisa a condição feminina no mundo do patriarcado – mas seu livro “Todos os Homens São Mortais” é um dos mais belos que li. Nesta fascinante obra, a autora esmiúça o existencialismo com um viés mais pessimista que qualquer outra coisa, através do Conde Fosca, um personagem imortal oriundo do século XIII – cativante e amargo – cujo “passatempo maior” é questionar a denominada natureza humana, especialmente a ambição e o poder, mas também a convenção do amor romântico e a existência (ou não) de um pretenso destino. A ficção – embora a parte histórica seja mais acessória que fundamental para a raiz da trama – é excelente, especialmente pelo “olhar e ouvidos do Conde Fosca. E permite ao leitor e leitora questionar os ciclos de desejos e vontados, agonia e extase dos seres humanos e se os mesmos se repetem ou não através dos séculos. Pela graciosidade literária de Simone de Beauvoir, possíveis anacronismos são descartados à trama, simplesmente por tratar da condição humana e dos absurdos da denominada natureza humana.

4. O Físico de Noah Gordon: romance magistral que inicia a saga da família Cole. Neste romance histórico, acompanhamos a história de Rob J. Cole, primeiro de vários Cole a exercer a medicina e utilizar de um poder de “sentir a morte” que é transmitido a alguns de seus descendentes. O interessante da trama é acompanhar a força de vontade de Rob J. Cole em se tornar médico, numa época – o obscuro século XI na Inglaterra e por toda a Europa Católica Cristã – no qual estudar Medicina era praticamente proibido aos mais pobres (é tão diferente hoje em dia?) e, por isto, decide ir estudar Medicina na Pérsia – melhor centro científico do mundo à época – e, para tanto, se passa por judeu – já que aos cristãos era proibido frequentar o curso de Medicina nas Universidades persas. A trama é simplesmente arrebatadora e envolvente. E permeada de um forte humanismo secular, tão necessário como se vê no desenrolar da ficção.

3. Agosto de Rubem Fonsca: Rubem Fonseca é um escritor depravado. Volta e meia releio seus contos e fico gargalhando sózinho com tanta devassidão bem humorada, mas o ex-delegado de polícia do Estado do Rio de Janeiro também é um exímio escritor de histórias policiais e uma delas é Agosto.A ficção histórica – muito bem construída pelo escritor – retrata o Rio de Janeiro de 1954, num tumultuado momento histórico brasileiro, no qual se noticiava o atentado frustrado ao jornalista Carlos Lacerda – então um dos maiores opositores do Presidente Getúlio Vargas. A trama acompanha o Comissário Alberto Mattos em torno da investigação de um crime aparentemente “simples”, mas que termina por envolver grandes nomes políticos da República brasileira. Rubem Fonseca é magistral na mistura do privado e do público neste romance e nos sufoca com a gastrite do Comissário Mattos, claro.

2. As Crônicas de Arthur de Bernard Cornwell: quando esquematizei esse Top 5 Ficções Históricas, fiquei na amarga dúvida da segunda e primeira colocação. E essa amargura permanece. Mas tenho de supera-la, claro. E reconhecer que “As Crônicas de Arthur” de Bernard Cornwell me mostraram um Arthur (não Rei) que nunca havia concebido e que nunca consegui esquecer. “As Crônicas de Arthur” se dividem em “O Rei do Inverno”, “O Inimigo de Deus” e “Excalibur”, três obras magistrais que reconstroem historicamente o mais viável que poderia ser a figura histórica de Arthur e não por sua visão, mas pela de um de seus cavaleiros juramentados da suposta “Távola Redonda” que nunca foi redonda – Derfel Cadarn. Derfel Cadarn é um dos mais cativantes protagonistas de romances que já li, talvez seja o mais cativante mesmo. E Bernard Cornwell reconstrói todo o mito em torno de Camelot e seus cavaleiros, com um ritmo alucinante e cheio de reviravoltas, heroísmo, honra e muitas batalhas. É a maior obra de Bernard Cornwell e já li os três livros três vezes cada um. Precisa dizer mais?

1. Xamã de Noah Gordon: Xamã continua, de certa forma, a história iniciada em “O Físico”. Acompanhamos a história de outro Rob J. Cole, agora um médico escocês exilado nos EUA do século XIX em meio a sua expansão no oeste, xenofobia e sua famigerada guerra civil. Mas Xamã, na verdade, é a história do filho surdo deste médico Rob J. Cole – um idealista acima de qualquer coisa – que também assina Rob J. Cole, mas é conhecido apenas por Xamã. Esta obra de Noah Gordon é cativante pelo cenário que nos apresenta, pelas tragédias e alegrias que permearam a construção dos Estados Unidos e o quanto custou aos nativos americanos o chamado “sonho americano”. Xamã é realmente uma história de superação, não destas bobas que passam em filmes de sessão da tarde, mas uma história que nos faz refletir realmente o que queremos e para onde vamos e, também, com quem vamos. Definitivamente é um dos meus livros preferidos.

 

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