Rant sobre estereotipagem das mulheres de Fogo e Gelo (com spoilers);
A página oficial de Game of Thrones no facebook resolveu postar hoje um artigo do The Huffington Post em que uma professora de literatura que muito provavelmente não leu os livros, faz uma tentativa risível de redução dos personagens femininos da série em arquétipos. Eu na minha infinita ignorância não sei se ela aplicou algum método de estudo literário pra escrever o tal artigo, mas minha fangirl interior, toda trabalhada no fogo e sangue, resolveu contestar tanta asneira e passar minha humilde visão sobre tantas lindas.
A autora começa falando de Arya Stark, classificando-a como The Tomboy, a menina sapeca que se porta como menino. O ponto positivo foi a comparação com figuras fortes como Guinevere, Lisbeth Salander e Katniss Everdeen. Mas em seguida, usa esse estereótipo pra reduzir Sansa Stark a ignorante e fútil, suportamente o total oposto da irmã, descrita como independente e “clear minded“. Razões pelas quais discordo: Arya é uma criança que se coloca em oposição a educação que a família oferece, tradicionalmente tentando transformá-la numa senhora, mas isso não significa que a mente dela seja assim tão decidida e clara. Assim como Sansa de início está presa nas histórias e canções de amor, Arya também está presa na fantasia de que a completa rebeldia é a solução pra seus problemas. No decorrer da história, ambas passam por períodos de intensa aprendizagem e se fortalecem, a pequena se disciplinando para não matar cada um que se coloca em seu caminho e a mais velha aprendendo sobre o complicado jogo dos tronos, para o qual ela tem trunfos e só precisa saber usar.
Passando de Stark para Lannister, temos uma descrição de Cersei como uma vilã sem escrúpulos e que surpreende a autora como sedutora. As traições nas costas de Robert Baratheon com o irmão gêmeo são levantadas, sem sequer levar em consideração o absurdo tratamento que ela recebia do marido que constantemente bêbado, não se comunicava com a esposa, a agredia fisicamente e verbalmente e quando se incomodava em ter relações sexuais, a chamava pelo nome de outra. O incesto também não é posto em contexto, visto que o irmão é o único em quem ela plenamente confia, depois de ser educada para não confiar em absolutamente ninguém. Não vou nem levantar com detalhes os aspectos psiquiátricos de relacionamento com irmãos, a necessidade de toque e segurança principalmente na ausência da mãe que morreu muito jovem. Seus filhos também são citados, embora o comportamento dos mais novos não tenha merecido destaque, mesmo que contrários ao do irmão mais velho.
A casa Targaryen bem representada por Daenerys Nascida da Tormenta foi bem descrita em geral, visto que a moça realmente batalhou para conseguir o que tem e segue determinada em tomar de volta seu trono. A garota vendida pelo irmão para um Khal Dothraki contrariou seu próprio povo tentando defender os indefesos e prosseguiu na mesma linha quando avançou por Astapor, Yunkai, Meeren e outras cidades conhecidas pelo comércio de escravos e lutas sanguinárias. Discordo ligeiramente da comparação da personagem com o ideal Americano. Mulher independente e lutadora existiu desde antes da descoberta das Américas. Catelyn Stark também foi bem descrita no geral, com toda sua devoção a família e aos ideais da casa Tully, mas as razões de oferecer um tratamento frio a Jon Snow não são explicadas (eu particularmente tenho dificuldades de entender as mesmas).
Shae, Brienne e Melisandre foram reduzidas a: puta com coração de ouro, mulher guerreira (associada a categoria de Arya) e bruxa. Suas motivações e personalidades não foram detalhadas e o enredo geral das crônicas foi simplesmente ignorado. No terceiro livro, Shae não tem um coração tão dourado. Brienne é mais do que sua espada, oferecendo seu coração a ideais nobres e tentando ao máximo cumprir seus deveres a quem jurou fidelidade. Melisandre mais do que uma bruxa é uma mulher que segue sua fé e serve a quem acredita ser o salvador que os reinos tanto precisam, além de oferecer sua sabedoria a quem figurar suas chamas.
Escrevi tudo isto na tentativa de mostrar que a estereotipagem de personagens é altamente perigosa, principalmente quando se trata de mulheres e de um autor que trabalha tão duro para oferecer independência a suas personagens femininas. Deixo aqui declarada minha vergonha de ver um trabalho tão maravilhoso reduzido a tanta trivialidade.




















