Literatura de Ficção Científica/Realidade Overpower

Os Psicotrópicos e a Ficção Científica

As drogas estão por aí desde que a humanidade se deu conta de que existe neste planeta. As drogas não são únicas e muito menos possuem um único fim. Podem ser utilizadas para fins religiosos, alimentando uma experiência psico religiosa já intensa como a ayahuasca utilizada no “Santo Daime” ou, de forma recreativa, como o álcool ou a cocaína em festas ou mesmo no trabalho. Mas assim como as drogas estão por aí desde “que o mundo é mundo”, também “desde que o mundo é mundo” existe uma dificuldade em se lidar com as drogas. Essa dificuldade varia não apenas de pessoa pra pessoa, mas também de cultura para cultura. E assim como existem pessoas com maior capacidade de utilizar e controlar as drogas, também existem culturas com maior condição de acomodar e “guiar” de forma adequada os usuários e usuárias das drogas. Pessoalmente, é o que acredito.

A expansão da percepção não é gratuita. E os meios e preço para acontecer essa expansão variam enormemente, assim como chegar a um destino varia em tempo e comodidade de forma diretamente relacionada ao meio que utilizou para essa viagem (a pé, de bicicleta, avião, ônibus, trem, carro, barco, etc) e “ao mapa do caminho”. Interessante que ao longo da História, inúmer@s foram @s personagens históricos ou míticos que se fizeram valer de drogas psicotrópicas para atingir determinado objetivo, religioso ou artístico  por exemplo. Jean Paul Sartre, filósofo e escritor autor do fenomenal livro “A Náusea” o escreveu sob efeito de mescalina, extraída do “peyote” (Lophophora williamsii). Aldous Huxley foi outro escritor que utilizou de drogas psicotrópicas para escrever. “As Portas da Percepção” é uma produção diretamente derivada do uso do “peyote”.

Aldous Huxley

Aldous Huxley

E ao citar Huxley, chegamos ao objetivo deste post: em que medida a ficção científica é diretamente herdeira de uma “herança psicotrópica” de seus autores?

Para responder a essa pergunta, devo contar uma pequena percepção sobre um dos momentos mais sublimes da história do cinema (em minha opinião, claro). Em algum momento das inúmeras vezes que assisti ao clássico “Star Wars – Episódio V: o Império Contra Ataca”, me dei conta de que havia ali, naquele clássico do cinema e da ficção científica em especial, um aspecto que faria Carlos Castanheda, autor do clássico “A Erva do Diabo” (se quiser fazer download do livro clique aqui), sentir uma espécie de déja vu.

Em Dagobah, Luke Skywalker aguarda o momento de conhecer o poderoso “Mestre Yoda”. Na cabana de Mestre Yoda (ainda não auto identificado a Luke), o futuro padawan experimenta da comida. Amarga, aparentemente muito amarga e, porque não, psicotrópica. Mesmo assim, podemos vê-lo experimentando. O que acontece depois é conhecido: Mestre Yoda se revela, Luke Skywalker se surpreende e o treinamento começa (depois de muita bronca de Mestre Yoda). Em determinado momento do treinamento, Luke “sente” o Lado Escuro da Força na caverna e lá adentra. O que se sucede ali é o confronto com Darth Vader, embora se saiba que ali Lord Vader era uma projeção dos medos existentes em Luke. Medos e um pouco de Presciência. Ingerir um psicotrópico para ampliar a percepção e, com o devido Guia, enfrentar os desafios impostos ao Herói é um ponto em comum a diversas mitologias ao redor do mundo. Por exemplo, o Soma é descrito, nos Vedas, como uma espécie de psicotrópico utilizado pelos próprios deuses, como Indra ou o próprio Brahman. 

Mas é em Duna que, sem sombra de dúvida, podemos observar a importância dos psicotrópicos não para o escritor – enquanto pessoa – mas sim para a trama. No universo ficcional de Duna, majestosamente elaborado por Frank Herbert, a Melange (ou Especiaria) é o que une o universo humano. Extraída do planeta Arrakis (Duna), ela possibilita vislumbrar desde o futuro até as melhores rotas para viajar pela galáxia, é comida, é bebida. A Melange está em tudo. Na obra de Frank Herbert, uma humanidade sem a Melange é uma humanidade fadada a desaparecer. O Muad’Dib  só se torna Kwisatz Haderach quando ingere a Melange em estado líquido, chamada “Água da Vida”. É por meio dela que ele vislumbra o futuro e tem plena dimensão da memória genética que possui. E desencadeia toda a trama da série Duna. Frank Herbert inseriu a Melange quase como uma personagem da trama de sua série Duna, ela está em todo lugar e é ela que possibilita que o universo de Duna exista. Diferente de outras abordagens sobre psicotrópicos, em Duna de Frank Herbert, reconhece-se o poder dos psicotrópicos. E também o cuidado que devemos ter com os mesmos.

Talvez o maior exemplo de como as drogas psicotrópicas podem causar efeitos devastadores na vida pessoal de um escritor e, ao mesmo tempo, lhe permitir criar obras literárias quase sagradas, vem de Philip K. Dick, autor de “O Homem do Castelo Alto”. Uma das melhores obras literárias de Philip K. Dick, em minha opinião, foi “Valis”, escrita sob efeitos de anos e anos de intenso uso de LSD. Você percorre os parágrafos, devora os capítulos e percebe a mente do autor se diluindo, inclusive na própria forma que o romance é concebido: auto biográfico, narrado em terceira pessoa, desmembrado na forma de um duplo personagem único.

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“Valis” é um romance genial e, dentro da literatura de ficção científica, pouco divulgado. Ao mesmo tempo em que possui essa genialidade literária, também funciona como um alerta aos navegantes sobre os riscos de um uso descontrolado dos psicotrópicos. Há passagens, até, que Philip K. Dick parece realmente emergir de um torpor e se perguntar: o que está acontecendo? Caso não conheça o livro, recomendo fortemente a leitura.

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As relações entre psicotrópicos e ficção científica não são novas. E também acredito que não deixarão de existir. Seja por meio do uso de mescalina por seus autores e autoras, ou então pelo uso do sagrado rivotril. O que me interessa, de verdade, é que saiba-se utilizar e, mais ainda, que mais e mais boas obras de ficção científica possam surgir desses estados alterados da consciência. Os leitores e leitoras agradecerão.

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Um pensamento sobre “Os Psicotrópicos e a Ficção Científica

  1. Na real, eu tenho medo!rs…eu sei que o medo está por fora (como disse o Belchior naquela canção), mas tenho medo. Fico na torcida pra que nem todos sejam como eu e escrevam obras maravilhosas sob efeito de qualquer coisa. Aí a minha droga passa ser a arte que me leva para o auto conhecimento…quem sabe um dia eu venço o medo?rs

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