Literatura de Ficção Científica

Leituras Prazerosas em Ficção Científica

Como diz a Lady Sybylla do Momentum Saga, é difícil uma classificação exata de onde começa e termina o que, comumente, chamamos ficção científica. Eu mesmo tenho uma dificuldade enorme de aderir às classificações sobre o gênero literário (e cinematográfico) porque sinto que mais se perde do que se ganha em reduzir demais um gênero tão rico como este. É claro que alguns pressupostos devem ser “sacros”, perdoem-me o trocadilho: ter uma base minimamente científica, seja no campo das ciências duras, biomédicas ou das ciências sociais aplicadas. Não é necessária, em minha opinião, a descrição de engenhocas tecnológicas nababescas. Ficção científica não é isto. Seu objetivo é lidar mais com o que a humanidade, social e psicologicamente, ganha (ou perde, dependendo do caso) do que com a descrição de uso e abuso de utensílios tecnológicos que possibilitem viagens no tempo ou teletransporte para espaçonaves na órbita de Marte. Verdade seja dita, a ficção científica – variando a intensidade de autores e autoras – sempre tratou mais do que sentimos sobre nós mesmos, por meio da ciência tratada de forma ficcional, do que qualquer outra coisa. 

Por isto fiz uma lista de livros que considero leituras prazerosas (muito mais do que obrigatórias) no gênero da ficção científica, se estendem do horror científico lovecraftiano ao drama político épico herbertiano. Há clássicos e também publicações mais recentes. De toda forma, são obras que considero únicas e que valem a leitura uma, duas, três ou mais vezes. Não estão organizadas em torno de “melhor”, até mesmo porque considero (aprendi recentemente) que não vale a pena entrar nessa seara envolvendo um panteão literário como este.

Fahrenheit 451

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Uma das melhores distopias da ficção científica. E quando digo “uma das melhores distopias” sou muito seguro quanto a isso. Ler “Fahrenheit 451″ é mergulhar numa obra atemporal. E essa atemporalidade é o que assusta de verdade, ao mergulharmos na leitura sobre um mundo no qual livros não são bem vindos porque são encarados como recursos para subversão e mais: estimulam o fim da tranquilidade. Temos de viver em paz e pronto. Plena tranquilidade. Sem questionamentos oriundos dos livros e, caso existam, fogo neles! Um belíssimo livro de Ray Bradbury.

Nas Montanhas da Loucura

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Em minha opinião, a obra máxima de H. P. Lovecraft. “Nas Montanhas da Loucura” é um livro que transita entre estilos literários. No livro podemos sentir, em sua literatura, uma descrição de cenário e espécies tipicamente “científicas”, seu detalhamento é um trunfo no sentido de Lovecraft nos apresentar o horror ancestral de forma “palatável”. Lovecraft não é econômico no detalhamento do “mal ancestral na Antartica” e tem a impressionante capacidade de dar consistência a uma ficção científica de horror ou um horror de ficção científica, algo que apenas Mary Shelley havia feito anteriormente com maestria.

Trilogia “Fundação”

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A trilogia “Fundação” de Isaac Asimov faz parte do panteão sagrado da literatura de ficção científica. Não pela obra e autor terem vencidos prêmios literários importantíssimos (como o Hugo), mas pela capacidade estrutural dos livros, que se abrem e se fecham de forma, arrisco dizer, quase perfeita. A trilogia “Fundação” foi desenhada de forma magistral por Asimov e muita de sua engenhosidade se encontra na capacidade do autor em aprender com a História para poder escrever um romance de ficção científica que trata, essencialmente, dos ciclos de ascensão e queda da (s) civilização (ões) humana (s) como poucos outros fizeram. E, na minha opinião, superado apenas por Frank Herbert em Duna.

Duna

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Em minha opinião, ao escrever “Duna”, Frank Herbert escreveu a maior obra literária de ficção científica. Muitos leitores e leitoras podem até discordar, o que é compreensível, mas não há uma vez que releia “Duna” que não me pegue embabascado com a grandiosidade da obra. É épica e contém (assim como a trilogia da Fundação de Asimov) um verdadeiro tratado sobre Psicologia Social e História. Uma leitura densa (que diante de um planeta deserto imprime uma sede de água fora do comum no leitor e na leitora), mas que é hipnotizante. Magistral, simplesmente.

La Chica Mecánica

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A inclusão de “La Chica Mecánica” de Paolo Bacigalupi não deve ser considerado uma surpresa nessa lista. Não é uma surpresa porque o livro se constitui muito mais que um experimento literário de ficção científica realizado pelo autor. Segue a trilha das distopias, mas situa sua história no Hemisfério Sul, no Reino da Thai (Thailândia) e nos presenteia com uma trama no qual os problemas ambientais não são um problema marginal na vida social. São os mais fundamentais. Tudo gira em torno dos efeitos dos desastres ambientais e das medidas necessárias para evitar que se repitam, o que inclui aí medidas drásticas contra o estudo da Genética e o poder dos conglomerados empresariais. “La Chica Mecánica” é um excelente livro para ser devorado não apenas pelo seu caráter literário, mas também pela possibilidade de explorá-lo como um recurso para se pensar que mundo estamos vivendo e deixando para nossos descendentes e as outras espécies. E o melhor de tudo, com poucos clichês na trama.

Trilogia Sprawl (Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive)

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Embora não ache a “Trilogia Sprawl” um exemplo de literatura “Top 5″ de agradabilidade na sua redação (e tradução no Brasil), embora seja em sua trama, a verdade é que ela é um clássico pelo caráter literário inovador imprimido por William Gibson, “inaugurando” o cyberpunk e transformando (para alguns leitores e leitoras para bem e para mal) o cenário literário da ficção científica. Essa inovação foi tamanha que, ao lado de Blade Runner (o filme dirigido por Ridley Scott inspirado em “Do android’s dream of electric sheep?” de Philip K. Dick), moldou (e muito) a produção literária de ficção científica (e também no cinema) resultando numa pergunta (para mim, uma pergunta sem sentido e inútil: o cyberpunk “matou” a ficção científica?

“Realidades Adaptadas”

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Realidades Adaptadas é uma seleção de contos realizada pela Editora Aleph de meu escritor preferido na ficção científica: Philip K. Dick. E, acreditem, uma bela seleção de contos. Estão no livro contos clássicos da ficção científica que inspiraram alguns filmes (e seus remakes) como O Vingador do Futuro, Screamers, O Impostor, Minority Report, O Pagamento, O Vidente e Os Agentes do Destino. E como toda adaptação cinematográfica de uma obra de literatura ou de história em quadrinhos, muita coisa é alterada, de forma positiva ou negativa, muitas das vezes.

Inseri, por último na lista, “Realidades Adaptadas” por considerar que muitas das melhores ficções científicas não são romances, mas contos. Exemplo? “A formiga elétrica” também de Philip K. Dick, um conto sensacional com o mesmo nível de debate intelectual que “A Metamorfose” de Kafka. Outro conto que considero excelente é “O Conflito evitável” de Isaac Asimov que nos permite a leitura e reflexão sobre a natureza da inteligência artificial e a dificuldade (que teremos?) em debater valores morais com uma criatura pós humana. Fantástico. No Brasil, podemos encontrar esses contos no livro “Histórias de Robôs – volume 2″ editado pela L&PM Pocket. Uma excelente seleção de contos (que ainda incluem George Zebrowsli, Vernor Vinge, Gene Wolfe).

Realmente, ler ficção científica é muito bom.

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Um comentário sobre “Leituras Prazerosas em Ficção Científica

  1. Acho a classificação válida só para fins de catalogação mesmo. Como numa livraria ou biblioteca, apenas para ter onde pôr. Quando trabalhei na livraria da Fnac, nós víamos a dificuldade de classificação de certas obras e acabávamos mantendo a obra em dois espaços diferentes.

    Mas uma classificação rígida demais também empobrece o gênero. Seja ele qual for, pois a beleza da coisa é você ver as facetas do ser humano em uma obra, e no caso da ficção científica, essas facetas da humanidade em um futuro ou em contato com a tecnologia. Acho que tem muita gente se preocupando em classificar do que em analisar as produções, que no âmbito nacional, andam bem pobrinhas.

    Ótimas obras. Li quase tudo… rsrs :D

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